SANTA MARIA CONGA

Publicação: 11 de janeiro de 2012

SANTA MARIA CONGA

I

…TODA ELA FEITA DO MAIS PURO ÉBANO

toda ela feita do mais puro ébano, a náiade mais puta e vociferante do cais da Redenção. Uma corda grossa balançando com seu pescoço na ponta e ainda se fazia ouvir a hetaíra, em discurso odioso e blasfemo. Testemunhos deram conta que os terríveis borborigmos alcançavam facilmente até o último dos espectadores, em espetáculo digno da pena de Dante...

          ― Pasquim odioso! ― Benevides amarfanhou as folhas ao jornal e o lançou sobre a mesa.

          ― Transformou, deturpou todo o ocorrido, deram-lhe um matiz demoníaco. Um espetáculo para a rafaméia…

          ― Disseram que mandaram a um preto que se lhe montasse no cocoruto e mesmo assim não a calaram ― Benevides franziu o cenho a esta minha observação.

          ― Não nego o ocorrido, mas repugna-me a forma como foi mostrado.

          ― Não obstante… ― pensativo, arrematou ― e mesmo se creditando toda a história ao sensacionalismo do texto jornalístico, o fato é que uma puta foi enforcada e gritou e blasfemou, pendurada como um trapo, por mais de vinte minutos.

          ― “toda ela feita do mais puro ébano…”. Esperemos agora, com calma, a explosão de raiva.

          Mas não. Apenas circulou pelo escritório, mãos as costas. E com voz surpreendentemente calma.

          ― Com o que voltamos a seu relatório. Não me leve a mal, entendo as necessidades de política de segurança, mas negar o evento ou diminuí-lo não vai arrastá-lo para o esquecimento. ― E severo, hirto, aguardou.

          Em vinte anos de carreira aprendi que de mulheres o Benevides não gostava, seja na cama, seja no trabalho. E a mim, isto também um fato, devotava especial ódio.

          ― Não fazemos tanta questão assim do esquecimento. ― Repliquei com uma espátula em riste. ― Mas fazemos questão da paz pública. E é de de paz pública que falamos aqui. A paz que seria perturbada por um acontecimento que deveria ser banal. Uma assassina, escrava e também puta de ganho, que mata seu Senhor. Confissão. Enforcamento com os requintes habituais de crueldade, um público satisfeito. Paz. A vizinha comentará com a vizinha, artes do diabo, feitiçaria de pretos, mas ficando a certeza de que acabou, a justiça foi feita.

          ― Agora, um relatório provindo do seu departamento, ― e brandi a espátula para Benevides ― um relatório que ventila relatos provindos de sabe-se lá onde, dando conta de aparições da escrava Maria nos mais diversos locais. As vezes ao mesmo tempo, valha-me Deus. Isto ― e agitei o calhamaço sobre a mesa, ― isto…é inaceitável.

          A sirena do Conceição escolheu o momento para se manifestar, vinte quadras abaixo na Redenção.

          Benevides e sua face sofredora aparentemente me ignorava tanto quanto ao som poderoso.

          ― Eu a vi. ― Disse em tom quase solene.

          ― Toda a rua, naqueles breves momentos, cheirava a rosas. É claro que tal não constou em meu relatório.

          O que foi o único ato lógico de sua parte, em toda a história.

          ― A presença simultânea em mais de um lugar é um dom dos santos. ― O católico Benevides, chefe de polícia e carola, comentou como que para as paredes.

          ― Então a coisa é grave, pois que já temos ubiquidade. Vamos agir antes que comecem a aparecer estigmas no corpo de uma puta na igreja de Santa Rosa Egipcíaca. ― Levantei-me e fui até a porta, então me voltei e com lenta deliberação fui até sua mesa e lancei seu relatório à lixeira. Empurrei o meu em sua direção.

          ― Tem aí o outro relatório e suas ordens, senhor Chefe de Polícia.

          ― Será juntado ao inquérito e eu mesmo cuidarei do relatório final. ― A voz já subia um tom.

          Vamos agora ao pequeno teatro, não é querido?

          ― Mas nada, nada…― tonitroante agora ― nada disso vai apagar o fato de que tenhamos, talvez, mandado enforcar a uma santa!

          ― Não. Não vai. ― me permiti um riso de mofa ante o Júpiter babando sua ira por sob as barbas.

          ― Talvez tenhamos que enforcá-la novamente. ― Eu tinha uma entrevista marcada com Mãe Joana e não iria me atrasar, nem mesmo para o espetáculo inigualável de Benevides em fúria.

II

A BATINA DE MONSENHOR ERA DA MAIS PURA SEDA

          A batina de Monsenhor era da mais pura seda e seu escritório era todo couro e madeira.

          ― Só a ideia já é repugnante. Mais, herética.

              Monsenhor resfolegava.

          ― Uma preta enforcada, com o pescoço em tiras, que dispara a fazer discursos. Herética toda a coisa, fábula de pretos ignorantes…

         ― Hóstias sanguinolentas também são heréticas, Monsenhor. A menos que provenham de uma escrava devota e com hemotipse. ― Minhas saias cobriam uma cadeirinha de mogno, de braços em arco e sem encosto, postada defronte à secretária de Monsenhor.

          Vamos, seu maricas pomposo, mais ação e menos falatório.

          ― Não são coisas de se brincar senhora Corregedora Henriqueta Maria de Andrada e Silva! ― Monsenhor Cotrim pontuou, as mãos unidas, os dedos encostados levemente aos lábios.

          Não, não são mesmo seu enrabador de moleques, chupador do gadanho de negrinhos.

          ― A escrava é propriedade do colégio, que por sua vez é mantido pela Irmandade, Monsenhor. Creia quando digo-lhe que não estou com a menor inclinação para a jocosidade. 

          Agora, que tal parar de me tratar como a um seminarista?

          ― É claro, é claro. Vamos aos fatos.― E virando-se para o mulato magro vestido na farda da irmandade vários números maior ― Diga tudo o que viu e tudo o que sabe.

          ― Monsenhor, é como disse-lhe antes na sede. Esta escrava, a Marianinha, ao tomar a hóstia teve a boca a pingar, cheia de sangue, valha-me Deus. E chorava, e gritava, dando suspiros os mais fundos, dizendo que vira a Santa Maria Conga…

          Foi interrompido pela voz sibilante do religioso.

          ― Proibo-o, senhor Constantino, proibo-o, entendeu?, de colocar esta palavra antes do nome de uma puta. De uma escrava e escrava assassina e escrava herege, que morreu herege e herege permanece no mundo ínfero. ― Monsenhor mantinha o corpo imóvel, dir-se-ia um autômato, como se um homem-máquina ali estivesse, com os vapores de seu ódio escapando em haustos finos e contidos.

          ― Monsenhor me perdoe, só repetia o que dizia a negra. ― Constantino afastava-se, passando as mãos pardas pela farda, agarrando e soltando ao crucifixo.

            Monsenhor recolheu-se em um mutismo pré-tempestade.

          Constantino, eu temia, teria que superar-se esta noite trazendo um moleque novo em folha e bem parrudo para confortar o vaso traseiro de Monsenhor.

          ― Eu digo que assim foi, senhora Corregedora. ― Volveu a face chorosa para mim.

         ― E não foi só uma vez, mas todas as vezes em que comungou. A mesma ladainha, os mesmo transportes, sempre a falar dessa Maria Conga, que a via nas paredes, que a via no oratório de Nossa Senhora, que lhe falava…

          ― O que Santa Maria dizia à escrava? ― Liguei o aparelho para a gravação em áudio. Depois, pensei melhor e premi também a tecla para vídeo e ajustei para holo.

          ― Dizia-lhe que tivesse fé, que ela, Maria Conga estava no céu, que sua morte fora provação que tivera que passar, que o Senhor que matara era o demônio encarnado e que o fizera por ordem de Deus. Que voltaria…― Constantino suava ―, voltaria para salvar todas as desvalidas…

          ― Desvalidas?

          ― As putas, as escravas, todas as mulheres. Mas as putas e as escravas por elas velaria mais…que seu santuário seria na igreja das putas.

          ― E aí começaram as curas?

          ― Senhora Corregedora! ― Monsenhor baliu mais que depressa. Ignorei-o.

          ― E aí começaram as curas, senhor Constantino?

          O mulato procurou com olhos a Monsenhor Cotrim, que assentiu com um gesto entre o enfado e a irritação.

          ― As curas, sim senhora. Primeiro a chaga na perna de um irmão menor. Depois o senhor dispenseiro, de tísica. Isso foi antes das velas…

          ― Na igreja de Santa Rosa Egipcíaca, eu sei.

          ― Depois Mimi…― E Constantino encolheu-se ante o olhar de Monsenhor.

          Ri e aguardei.

          ― Mimi, minha cadelinha. ― A face parda de Constantino, se isso é possível, se fez rubra.

          ― Mas é uma santa completa! Vela pelas putas, pelas escravas, pelas mulheres e também pelos animais.

          ― Ela disse a Marianinha que sim, que pelos bichos também velaria…

          E dito isto, recebeu a determinação muda de Monsenhor para sair. Um minuto inteiro se passou antes que se dignasse a me dirigir a palavra.

          ― Pode a senhora ver a gravidade da situação? Uma situação que sai de nosso controle? Uma situação que envolve a turba e uma turba que pensa ter nesta…santa de fancaria, uma protetora. ― e alteando a voz ― Uma situação que abre margem para a desordem, para o pecado mais nefando, a sedição mais negra?

          Por que todo maldito padre tem que ler Vieira e ler mal?

          O estilo de Monsenhor era como seus hábitos de cama, pegajoso. E como seu caráter, pedante.

          ― Monsenhor, só posso agradecer sua atenção e garantir-lhe que não estamos a subestimar os perigos que o aparente desenvolvimento deste culto à puta enforcada pode trazer. Por favor, providencie para que todos os envolvidos sejam entregues a nossa guarda. Já requisitei uma tropa à irmandade para os recolher.

          ― De acordo, já dei ordens para completa cooperação. Mas, peço, não, insisto mesmo para que me diga o que se pretende fazer.

          Beije-lhe a mão cheia de anéis que me estendia.

          ― O necessário, Monsenhor. Mesmo que extremas as medidas. Se me dá licença?

          À saída vi um escravo de ganho beijando uma imagem 3D em seu celular, um dos novos santinhos de Santa Maria Conga que pululavam pela Rede.

          Ordenei sua prisão imediatamente.

III

A IGREJA DE SANTA ROSA EGIPCÍACA BRILHAVA AO ROSA DO POENTE

          A igreja de Santa Rosa Egipcíaca brilhava ao rosa do poente quando lá entrei e apresentei o passe que me fora dado por mãe Joana. A porteira, uma puta sarará que já fora bela um dia, olhou desconfiada para os milicianos que me faziam guarda.

          Ignorei a puta e joguei o passe ao chão, avançando para o interior. Putas a mancheia lotavam todos os cantos, escravos de todos os ofícios e mesmo brancos. Preocupante também a presença de pretos islãmicos, amontoados no fundo de uma nave lateral.

          Luzes fluorecentes de péssimo gosto, oratórios iluminados por horríveis lampadazinhas coloridas, alto-falantes, tudo o que somente o templo de uma irmandade de putas e escravas poderia oferecer.

          Mãe Joana sentava-se no primeiro banco, cercada por sua andrajosa corte de marafonas a caminho do túmulo. Me ignorou e por mim foi ignorada. Certamente envergonhava-se de ter me recebido, nunca o diria nem a si mesma, mas era evidente.

     Cadelas presunçosas. Dizem que na caminhada para seu enforcamento Maria Conga balançava freneticamente os ombros e freneticamente balbuciava : “que me importa?”, “matei, matei, matei…”, “pois sim, pois sim, pois sim…que me importa?..matei e matei bem matado”.

          Para cadelas, o rebenque. Ostensivamente saí distribuindo choques elétricos a esquerda e a direita, até que se formasse um espaço por onde caminhei até o novo oratório da santa. O negro de batina que oficiava a missa silenciou e arrastou o coroinha retinto consigo.

          A nova santa e eu nos miramos. Uma semana desde o ocorrido e já algum preto santeiro havia criado um imagem em holo da desgraçada.

          Todo o lugar no mais absoluto silêncio e Santa Maria Conga e eu duelamos, nos medindo e posso jurar que de beatífica a face da negra se retorceu para um rictus de fúria e mofa que certamente não fora programado pelo santeiro.

          Devolvi o olhar e o desafio. Arrumei minhas saias e voltei-me para a circunstantes.

          Arrumei minhas saias e voltei-me para as putas, os pretos, os brancos, os pobres e os remediados. E os encontrei vermelhos. Toda a igreja, num repente, vermelha. Vermelhas também minhas saias e minhas mãos.

          Foi aí que os milicianos me escoltaram para fora da igreja, distribuindo porretaços pelo caminho na multidão ávida por tocar minha face, minhas lágrimas de sangue.

          E continuaram elas a cair, cair, numa torrente sem fim.


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